História do ponto de vista do Luciano
A Descoberta

Meu batismo na igreja batista aconteceu em 1995, sendo assim devo ter chegado lá em 1994, não tenho a data exata,
mas a grande verdade é que ela já estava lá. Ela já era membro da Igreja Batista Ebenézer desde que nasceu. Ficamos juntos
na mesma igreja durante muitos anos e ela nunca me chamou a atenção, talvez por ter apenas 14 anos naquela época. Então o
tempo passou, eu acabei casando e mudando para Vitória (ES), morando por lá um ano.
Quando voltei ao Rio descobri uma coisa interessante: a Igreja Batista Ebenézer original que eu conhecia (lembre que a igreja
são as pessoas compõem o grupo) havia mudado de local e de nome, agora se chamava Igreja Batista Renascer e era formada por
quase todos os membros da antiga Ebenézer menos o pastor. Ambas seguiram caminhos distintos e eu fiquei na Batista Renascer
que era onde estava a "minha turma". E quem também estava lá? Sim, mais uma vez continuávamos unidos pela igreja.
Talvez o motivo pelo qual ela nunca tenha me chamado a atenção é porque, desde que entrei para a igreja, sempre tive o hábito de
me localizar no primeiro banco e ela, o inverso. Até que um dia cheguei atrasado, igreja lotada lotada, não dava nem para
caminhar pelo corredor para chegar lá na frente. Fiquei bravo, desisti e fiquei em pé, lá no final (sim, quando a igreja
enchia o povo ficava em pé invadindo a calçada).
No momento do louvor, quando o pastor pediu que a igreja se colocasse de pé foi quando vi aquela miragem no meio do deserto!
Uma mulher com formas esculturais, cabelo na fina cintura, formato harmônico, precisão divina! Foi quando perguntei, em inglês
(tínhamos o hábito de usar esta língua para nos comunicar), ao amigo Adilson Silva sobre "aquilo".
Ele me respondeu, também em inglês, que o objeto referenciado se chamava Kelly e que era irmã do Anderson e que ela sempre ficava
na igreja naquele local, bem atrás, ao lado do irmão e da esposa dele. Esse seria o primeiro complicador, visto que, por algum
mal entendido do passado, o Anderson era a única pessoa da igreja que não se relacionava comigo. E ela só andava com ele, como
um carrapato. Logo vi que seria necessário elaborar alguma técnica aldaz para me aproximar da criança, e dali para frente
passaria a dar mais atenção à parte de trás da igreja. A coisa não foi fácil, foram várias tentativas infrutíferas.
O Retiro de Carnaval
Nós evangélicos temos o hábito de passarmos o feriado de carnaval todos reunidos. A igreja toda vai para algum hotel ou fazenda
retirado da cidade para promover momentos de descontração, relacionamentos e cultos. Quando a igreja organizou o retiro de 2001
recebi uma notícia engraçada: Foi escolhido um sítio em Rio Bonito e a data prevista para o deslocamento da igreja seria o primeiro
dia de carnaval. Você tem noção do que é entrar na estrada para a Região dos Lagos no primeiro dia de carnaval? Quem já teve essa
experiência não quer repeti-la. Então fui taxativo com o pastor "eu não vou sair com vocês na sexta-feira a noite, vou na quinta,
nem que tenha que dormir dentro do carro parado à porta da fazenda", e assim foi feito. Mas não precisei dormir no carro pois um
grupo de cinco pessoas também chegou um dia antes, para limpar os quartos, arrumar a cozinha e fazer todos os preparativos para a
chegada da igreja no dia seguinte. Além de mim (sozinho no carro) chegou outro carro com algumas pessoas que fariam esse trabalho.
Um pouco mais tarde chega o pastor, para coordenar e verificar as atividades. Adivinhem quem veio com o pastor? Eu nem acreditei!
A primeira coisa que pensei foi "não acredito que terei esse dia todo só eu e ela aqui nessa fazenda!". Como não costumo dispensar
as oportunidades, passei o dia ao lado dela, contando histórias, balançando ela na rede, fazendo-lhe companhia... Foi quando,
finalmente, pudemos começar a nos conhecer um pouco. Descobri duas coisas tristes:
1. Ela não me daria a menor condição, pois achava que eu tinha namorada. Descobri que, na cabeça de todos da igreja, eu namorava com
a Vânia, uma menina muito simpática, que eu gostava muito, mas que nunca houve qualquer tipo de intenção amorosa.
2. Ela não me daria a menor condição, pois foi para o retiro com um objetivo específico de "pegar" o Laurinho, que era um "gatinho".
É... A coisa ficou difícil...
Kiffer, Laurinho, Fábio e Sadã (Felipe Dantas)
No dia seguinte chegou a igreja depois de oito horas de viagem! Isso mesmo, oito horas de viagem! Entendeu agora porque eu não queria
ir na sexta-feira? O local fica a uma hora de distância do Rio. Olha quanta dificuldade, naquele grupo estava chegando o Anderson
(que supostamente seria uma barreira) e o Laurinho (sem comentários). Minha primeira surpresa foi que, ao chegar, a primeira coisa que
aconteceu foi o Anderson me chamar para jogar futebol. Pensei "ou algo grande aconteceu ou é uma armação para um linchamento", mas fui.
Realmente algo grande aconteceu porque ele estava meu amigo! Agora só faltava "matar" o Laurinho, mas ele é parceiro, não merece a morte por causa de uma garota! ...
Foi uma coisa muito engraçada aquele retiro, todas as vezes que ela se aproximava dele, eu estava lá para atrapalhar... Servi o almoço
dela todos os dias. Para encurtar vou contar o momento máximo:
O Edmar estava instalando telão e projetor para uma apresentação a noite e, nesse momento estava a Kelly sentada num banco coladinha com
o Laurinho, "a parada ia rolar", precisava pensar rápido. O telão já estava lá, instalado, pendurado em um poste com outros dois postes
nas laterais. Corri para cima do poste tendo que, literalmente, escalá-lo, chegando lá em cima gritei "Laurinho, corre aqui porque o telão
vai cair, sobe no outro poste e ajuda a segurar". Ele veio correndo, subiu no outro poste e ficou segurando. Ficamos os dois lá, com cara
de panaca segurando o telão, a Kelly embaixo olhando para mim com cara de muito brava e o Edmar que já havia entendido tudo ficou lá embaixo
instalando o equipamento e dizendo para ficarmos segurando o telão só mais um pouco enquanto ele terminava o serviço. O Edmar ficou nos
prendendo lá por mais de meia hora até que a Kelly desistiu e foi embora, brava da vida, e fazendo uma cara ameaçadora para mim. O Laurinho
ficou lá segurando o telão, feliz por estar sendo útil ao amigo e eu, com o copro doendo de ficar pendurado segurando aquele troço mas feliz
com a vitória momentânea. Se você estiver lendo isso, obrigado mais uma vez, Edmar.
Nunca tente deter uma mulher, quando ela quer atingir um objetivo, tenha certeza, ela vai atingi-lo. No último dia do retiro, ficamos a noite
cantando. O sono começou a bater e quando percebia que o grupo iria se desfazer e ela ficaria sozinha com ele, eu agitava puxava outra música,
a turma empolgava e ficava mais um pouco... E assim foi a noite toda, até que o pastor, Roberto Sacramento não mais agüentou e foi dormir. O grupo foi ficando,
ficando, até que aos poucos foi se dissipando. Já eram 4 da manhã, todos caindo de sono, quando percebi que a dissipação seria geral, fui me
retirando. Você acredita que eles enganaram a todos, fizeram que iam dormir e voltaram para a seresta? Dancei... No último dia do retiro ela
finalmente conseguiu atingir seu intento.
Negociações e Preconceitos ou Conceitos Pré-Fabricados
O Laurinho não estava muito interessado mesmo, só ficou com ela porque, qual é o animal predador que recusaria ser atacado por tão bela presa? E
não demorou muito para ela perceber isso. Eu já havia até negociado uma data limite com o ele (sempre fomos muito amigos e não seria uma
garota que iria atrapalhar isso). Ele havia concordado, pois realmente não tinha nenhuma intenção futura com ela (é mulheres, nós homens fazemos
isso!). Quando o Laurinho saiu de cena, começou uma onda de animais predadores em busca da presa. O pior é que, de todos, eu era o que tinha menos
chance. Segundo ela eu era
esquisito, estranho, velho e feio. Como se tudo isso não bastasse ainda tem o preconceito social forte em
relação à dupla "Os Dois Anjinhos". Mas eu não estava disposto a desistir daquela preciosidade...
Nunca reclame comigo quando, ao ver uma mulher bonita eu digo "olha que
objeto bonito", pois nunca em minha vida ouvi tanto a frase "desista
dela, ela merece
coisa melhor". Ou seja, mulheres, estamos empatados. É triste ver que o seio da religião a qual decidi seguir é o mais
preconceituoso que existe. Por trás da frase "Deus tem reservado o melhor para você" se esconde a parte mais negra de uma ideologia que prega a luz.
A única coisa certa é que Jesus tem muita vergonha desse povo que se intitula o povo dele. Mas eu ainda acredito na proposta e na vitória do cristianismo.
Ele vai prevalecer mesmo tendo a igreja para atrapalhar o seu crescimento. Estou me referindo ao cristianimso como ideologia, e não como instituição.
A instituição vai sempre continuar crescendo, ainda que precise violar os conceitos pregados pelo seu criador.
A Mágica da Vida e o Segredo da Vida

Eu, como profundo observador dos movimentos sociais sempre admirei o que chamo de
mágica da vida. Aquela situação que o homem (de 8 a 200
anos) fica bajulando a mulher (de 4 a 200 anos), fazendo palhaçada igual cachorro balançando o rabinho para chamar a atenção dela. A mulher,
fazendo seu papel na mágica da vida faz que não está percebendo e assim vai, até que um "pega" o outro. É sensacional ela acontece de todas as
formas, seja num baile funk seja num show de ópera, na praia a 50 graus de sunga e biquini ou no alto da montanha a menos 10 graus todo encapotado,
não interessa a situação, a mágica da vida acontece e isso sempre me encanta. As vezes até comento com a Kelly "olha ali, eles talvez nem saibam,
mas a mágica da vida está rolando".
A vida tem vários segredos, mas um deles eu vou contar agora. Nós machos, animais predadores nos interessamos pela presa, em primeiro lugar por sua
forma física. Se a presa é linda, não existe predador que resista, por isso não tem graça quando alguém diz "estou apaixonado por aquela mulher" e
aquela mulher é a Mariana Ximenes ou a Sabrina Sato. Esses objetos todos querem possuir. Já a mulher consegue ver além da carcaça, sim, as mulheres,
por mais que os moldes modernos queiram negar, ainda apreciam gentileza, humor, coerência intelectual e até mesmo a cultura do cidadão. Seguindo essa
linha a maioria vê, em primeiro lugar, a situação financeira, mas isso é conversa para outra hora.
Depois do carnaval foram três meses enviando um buquê de flores por semana, eventualmente pegando na saída da escola a noite (CEFETQ - Maracanã),
contando história, passeando. Nessa época, a Praia Vermelha, na Urca virou o nosso "point", ela adorava ir para lá depois da aula, só para comer
um cachorro quente vagabundo, beber água de côco e ter alguém que sentasse na areia para ela contar suas histórias e fazer de "banquinho" enquanto
aprecia o pão de açúcar, o bondinho e a forma privilegiada que o Rio de Janeiro foi tratado pela natureza.
Talvez ela não tenha percebido, ou se percebeu, fez que não percebia, mas a mágica da vida já estava acontecendo, e as probabilidades começavam a
mudar a favor do que seria impossível. Esquisito ou estranho, eu sabia o segredo da vida, e sempre gostei de praticá-lo.
A Vitória

O que ela me diz é que estava possuída pela curiosidade de entender essa pessoa que fazia tudo deixá-la feliz e confortável. Ao que percebo a
curiosidade era tanta que chegou ao ponto de querer saber o gosto dessa pessoa. E foi no dia 16 de maio de 2001 que ela matou essa curiosidade
enquanto assistíamos a um filme na casa dela. Não deve ter sido ruim, porque no dia seguinte passei na casa dela para entregar-lhe algo (agora
não lembro o quê, talvez fosse mais um buquê de flores) e ela quis repetir a dose, estávamos do lado de fora encostados no carro enquanto a mãe
dela via pela janela.
Depois de mais alguns meses ela assumiu perante a igreja e perante a sociedade algo que estava sendo mantido como um segredo de estado. Ela dizia
que a intenção dela era mesmo só experimentar para matar a curiosidade e depois descartar, afinal, que vergonha namorar com alguém tão esquisito! E
nesses oito anos de esquisitices e estranhezas descobri alguém completamente compatível ao meu
modus vivendi. Que está ao meu lado nos
momentos bons e ruins, que acredita em mim e que me ouve, que não tem problemas com as coisas que faço e me deixam feliz.
Quando precisava ir a São Paulo, seja a trabalho, seja para os congressos da Microsoft, ficava triste por sua ausência, mas ele sempre estava lá
apoiando minha ida por entender a importância do crescimento profissional e intelectual que sempre foram minhas metas. Chegava até ao ponto de saber
os nomes dos meus amigos desses encontros, como se ela tivesse ido. E, principalmente, nunca se importou com as "farras" que fazíamos após os eventos.
A época que trabalhamos na CEDAE foi dura (para mim, que detesto acordar cedo e cumprir horário de expediente) pois acordava cedo todos os dias,
deixava ela na Tijuca, passava na escola das crianças para ficar um pouco com eles (eles ainda moravam com a mãe) e depois partia
para Botafogo. Foi quando um dia ela me informou que a Universidade Veiga de Almeida - UVA - estava com vestibular aberto e que a prova seria amanhã.
Ela tinha o sonho de fazer Nutrição então combinou comigo de, no próximo período nos inscrevermos. Coitadinha, ela pensava que a prova era
difícil e que teria que passar para entrar numa faculdade particular. Quando saí da CEDAE Botafogo passei na UVA fiz a nossa inscrição, passei na
CEDAE Tijuca mostrei a ela os comprovantes. Ela achou loucura, que não estávamos preparados para a prova! Esquisitice ou estranheza entramos na
UVA em janeiro de 2005 e exatos quatro anos depois nos formamos, em dezembro de 2008, ela em Nutrição eu em Ciência da Computação.
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O tempo de faculdade foi pesado pois, apesar de estudarmos na mesma escola, só tínhamos o tempo do intervalo para nos vermos e, normalmente, eu dava
esse tempo aos amigos, que eram muitos. Nos dois primeiros anos, enquanto morávamos perto, ainda tínhamos o tempo da ida para casa, mas depois mudei
para o Recreio dos Bandeirantes e nosso tempo ficou ainda mais escasso. Mas foi um tempo muito bom, lembro da primeira aula de anatomia dela, que
ela bateu à porta da minha sala, fez-me sair, meus colegas e amigos ficaram preocupados porque ela queria que eu saísse exatamente àquela hora. E o
que ela queria era chorar no meu peito, pois estava chocada por ter inserido o dedo entre os músculos de um cadáver.
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Tão esquisito quanto "A Bela e A Fera" é a simbiose que criamos desde que estamos juntos, só nos faltava tempo para ficarmos juntos. Casamento nem
pensar pois ela achava que não conseguiria conviver com os meus filhos. Para mim, estranho era estarmos tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes.
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Quando resolvi sair da igreja que estávamos há tantos anos, ela me acompanhou sem pestanejar. Deixamos a Igreja Batista Renascer em Vaz Lobo e
atualmente estamos na Igreja Batista Videira Verdadeira em Parada de Lucas, que nos foi indicada pelo então professor dela, Carlos Magno,
onde o pastor João Carlos ajudou-a sobremaneira a vencer seus medos e preconceitos.
Em novembro de 2008 ela tomou a decisão de aceitar as crianças, no final de janeiro de 2009, quando vi que ela estava disposta a ficar firme,
defini que casaríamos no próximo dia 16 de maio, para comemorar o aniversário de namoro. Parecia
uma coisa impossível organizar o casamento em tão pouco tempo, mas como sou esquisito mesmo, acho que isso a contagiou e estranhamente as coisas
estão acontecendo, a vitória da verdade sobre o preconceito.
"E sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Romanos 8:28)